sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Lavar calçada com água limpa NÃO!


Apesar de todo mundo saber que não se deve usar água limpa para lavar calçadas - em algumas cidades existe até multa para quem fizer isso -, muita gente insiste em cometer esse pecado ambiental.

Ao levar minha filha para a escola, presenciei um crime ainda maior: um mesmo condomínio - situado na esquina da rua Piauí com a rua Bahia, no bairro de Higienópolis, em São Paulo - colocou seus funcionários para lavar as calçadas com mangueira, isto é, usando água corrente limpa, três vezes na mesma semana! E em uma semana de chuva quase todos os dias! O pior é que certamente a grande idéia não foi deles. Eles devem ter sido orientados ou pelo zelador, ou, mais provavelmente, pelo síndico a fazer isso.

De acordo com o Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, o hábito desse condomínio leva ao desperdício de aproximadamente 310 litros de água por lavagem. Parece pouco, mas sabe o que representa esse gasto? Se 1 milhão de residências ou prédios deixassem de lavar as calçadas por um único dia, sobraria água suficiente para abastecer a população da cidade de São Paulo no mesmo período.

As calçadas não precisam ser lavadas, apenas varridas. Caso a sujeira esteja incomodando demais, deve-se usar a água que sobra de outras lavagens, como de roupas, ou água da chuva. Teoricamente todo mundo sabe disso e diz ser contra o desperdício, mas na prática, como se vê, a realidade é outra. Infelizmente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Dicas de sustentabilidade da minha avó 3 - economia de energia


Uma coisa que sempre foi regra na casa da minha avó foi economizar energia elétrica. Ninguém podia sair de um ambiente sem apagar a luz - caso contrário, lá vinha ela atrás de nós desligando os interruptores com aquela famosa frase: "não somos donos da Light!" (Light era o nome da concessionária de energia naquela época).

Apagar as luzes dos cômodos vazios é apenas uma das muitas formas de economizar energia elétrica dentro de casa. Também faz diferença trocar as lâmpadas incandescentes por fluorescentes, que, apesar de mais caras, compensam o investimento pelo menor consumo de energia e pela maior durabilidade. Seguindo o mesmo raciocínio, na hora de comprar eletrodomèsticos, não se deve esquecer de olhar os dados de eficiência energética dos aparelhos, para dar preferência aos mais econômicos.

Outra prática importante é tirar os aparelhos eletroeletrônicos da tomada quando não estiverem sendo usados. Além de economizar energia - sim, eles continuam usando a eletricidade da rede mesmo estando apagados -, assim você evita que os aparelhos sejam danificados em caso de “apagões” ou grandes oscilações na rede. Isso vale inclusive para o controle remoto, por isso a TV deve ser desligada diretamente no botão do aparelho.

Minha avó também esperava os alimentos esfriarem antes de colocá-los dentro da geladeira, evitando gasto adicional de energia para equilibrar a temperatura interna. E ainda descongelava o freezer de tempos em tempos para diminuir o acúmulo de gelo, outro "ladrão" de energia.

São atitudes simples, mas que fazem grande diferença para o bolso e para o meio ambiente.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Movimento + Feliz


Interessado em voluntariado? O Movimento + Feliz, que acaba de ser lançado, tem justamente o objetivo de promover a participação da sociedade em causas sociais. Inicialmente, o primeiro beneficiado do programa, desenvolvido pela agência de comunicação 141 SoHo Square, é o projeto Bairro-Escola, da ONG Cidade Escola Aprendiz, mas deve ser levado depois a outras instituições. No blog do movimento, os organizadores pedem a doação de um dia de trabalho ou de salário à campanha e explicam como isso pode ser feito. A campanha de divulgação, criada pela própria 141 SoHo Square, foi produzida de forma voluntária pelas produtoras parceiras do movimento e está sendo veiculada pelos veículos de comunicação gratuitamente.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Aparelhos carregados a luz solar


Já existem diversos equipamentos de uso cotidiano que podem ser carregados a luz solar: calculadoras, celulares, carregadores, luminárias e até aparelhos de uso médico, como medidores de pressão. Eles são uma boa pedida para reduzir o consumo de energia elétrica e evitar as pilhas e baterias tradicionais, que, quando descartadas de forma inadequada, poluem os solos e as águas.


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Produtos baratos podem esconder trabalho forçado

Você já imaginou como se mantém a indústria de produtos muito baratos? De acordo com a Organização Internacional de Migrações (OIM), sua base está na exploração de trabalho forçado, que atinge mais de 12 milhões de pessoas em todo o mundo.

Para acabar com o problema, a OIM acaba de lançar uma campanha para envolver os consumidores no combate ao tráfico de pessoas - chamada What's Behind the Things We Buy (o que está por trás das coisas que compramos, em português). Seu objetivo é levar os consumidores a questionar o que leva um produto ou serviço a ser vendido por um preço muito baixo. Segundo a OIM, é fundamental que se conheça a origem do que se compra e de que forma é produzido.

Então, quando você se deparar com produtos baratíssimos, lembre-se de saber de onde eles vêm. Dá trabalho, mas você contribui para evitar que pessoas sejam exploradas e traficadas para dar lucro a empresários inescrupulosos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Calibrar os pneus ajuda a diminuir a poluição

Muita gente não presta atenção na calibragem dos pneus do carro ou só passa no posto para conferir a pressão quando vai pegar estrada. Só que calibrar os pneus regularmente é fundamental para reduzir a emissão de gases causadores do aquecimento global - e também para economizar combustível, reduzir a depreciação dos pneus e ourtas peças do carro e manter a segurança na direção.

De acordo com uma pesquisa realizada pela empresa Bridgestone em seis países da América Latina em 2008 (Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, México e Venezuela), um em cada seis motoristas dirige com a pressão dos pneus abaixo do recomendado. Desses, um em cada seis deixa os pneus com pressão abaixo do limite mínimo de segurança, colocando em risco sua integridade e a de outras pessoas.

Por causa desse descaso com a calibragem, esses motoristas desperdiçam por ano 660 milhões de litros de combustível, o que corresponde a US$ 645 milhões. Eles também provocam uma emissão extra de 1,5 milhão de toneladas de carbono na atmosfera. Isso acontece porque pneus mal calibrados fazem com que o motor trabalhe com mais esforço, queimando mais combustível e emitindo mais poluentes.
E você, já conferiu hoje como anda a pressão dos pneus do seu carro?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Breathing Earth

Um site interessante para quem gosta de estatítiscas, mas de uma forma visual e criativa: o Breathing Earth. A página apresenta, no mapa-múndi, uma simulação em tempo real das emissões de carbono e das taxas de natalidade e mortalidade de cada país. E tudo isso vai aparecendo no mapa enquanto você navega pelos países. Por exemplo, a cada nascimento e morte, aparece um ícone para sinalizar o país onde esses eventos aconteceram.
Achei interessante a possibilidade de comparar os dados entre os países e de visualizar a rapidez com que os eventos ocorrem no mundo - um contador mostra quantas pessoas nasceram e morreram e quantas toneladas de carbono foram emitidas durante o período que você passou visitando o site. O ritmo é assustador, fica claro que os ativistas têm razão em dizer que a hora de fazer alguma coisa é agora.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Novo CD de Ney Matogrosso é neutro em carbono


O novo CD de Ney Matogrosso, Beijo Bandido, que acaba de ser lançado, traz uma novidade, além das belas músicas do repertório do cantor: o selo Prima Mudanças Climáticas. Concedido pela ONG Prima - Mata Atlântica e Sustentabilidade, o selo certifica que a produção do CD teve suas emissões de carbono compensadas. No caso, as cerca de 600 toneladas de carbono geradas no processo foram neutralizadas por meio do plantio de mais de 100 mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, no sítio do próprio Ney, em Saquarema (RJ).

Beijo Bandido é o primeiro CD no Brasil a compensar os impactos ambientais de sua produção. Mas não é a primeira incursão de Ney Matogrosso na área de sustentabilidade - seus últimos shows já tinham suas emissões compensadas da mesma forma.
Para calcular a quantidade de carbono emitida na produção do CD, a Prima levou em conta, entre outros fatores, a energia elétrica gasta nas gravações e na confecção dos CDs e o gasto de combustível nas atividades de transporte de materiais e de distribuição dos discos em todo o país. Tomara que outros artistas adotem a ideia de Ney Matogrosso.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Campanha e rock pelo clima



A Campanha Global de Ações pelo Clima, também conhecida por TicTacTicTac, está promovendo uma série de ações pelo mundo todo para chamar a atenção da sociedade civil e da opinião pública para as discussões da COP-15, confereência da ONU sobre mudanças climáticas que será realizada em desembro em Copenhague, na Dinamarca. A idéia das organizações que fazem parte da campanha é levar uma série de orientações e reivindicações para o evento.

Para ajudar na mobilização, a campanha lançou um vídeo com a regravação da música Beds are Burning, um sucesso dos anos 90 da banda australiana Midnight Oil, cantada por diferentes artistas, entre os quais Lily Allen, Marion Cotillard, Fergie, Duran Duran, Scorpions e os próprios autores, só para citar alguns. A letra originalmente trata da questão aborígene na Austrália, mas tem tudo a ver com o momento atual, em que, para o lucro e o conforto de alguns, se destrói a terra da maioria.

Sempre gostei da música e da banda - conhecida por seu ativismo ecológico -, e curti a nova versão. Confira.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Dicas de sustentabilidade da minha avó 2 - desperdício de comida

Minha avó tinha horror ao desperdício de comida - ela dizia para os netos que isso era pecado. E, confesso, herdei isso dela. É uma das coisas que mais me deixa mal, ainda mais se pensarmos quanta gente passa fome por aí. Então, o que ela fazia e que eu faço: estoco na despensa apenas alimentos não perecíveis. Os outros compro conforme a necessidade. Por isso, vou toda semana à feira ou ao supermercado (usando sacolas retornáveis) e aproveito para trazer as frutas e legumes da safra. Assim, dá para variar bem o cardápio e comer comida fresca sempre. E quando sobra alguma coisa das refeições - o que tem sido cada vez mais raro, porque também me disciplinei a cozinhar apenas a quantidade que a família vai comer -, no dia seguinte crio algum novo prato com as sobras.

Como já deu para perceber, essa prática também ajuda a economizar dinheiro. Comprando só o necessário, não jogamos nada fora e gastamos menos nas compras. E ainda contribuímos com os produtores locais de alimentos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

São Paulo aprova Política Estadual de Mudanças Climáticas


Aproveitando o Blog Action Day, que neste ano trata de mudanças climáticas, trago uma boa notícia, em especial para os paulistas: acaba de ser aprovada a Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC) do Estado de São Paulo. Um dos principais pontos da Polítca é o estabelecimento de uma meta de redução de emissão de gases causadores do efeito estufa para todos os setores da sociedade: 20% até 2020 em relação às emissões registradas em 2005.

A PEMC também cria o Conselho Estadual de Mudanças Climáticas – que terá caráter consultivo – e dá ao Fundo Estadual de Prevenção e Controle da Poluição (Fecop), que hoje apóia projetos relacionados ao controle da poluição e preservação do meio ambiente, a atribuição de financiar ações e planos específicos de adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.

Entre outras medidas, a PEMC incentiva ainda a criação de políticas públicas que priorizem o transporte sustentável, com a construção de ciclovias, o desenvolvimento de programas de carona solidária, a ampliação da inspeção veicular.

Com isso, os representantes do governo do estado pretendem mostrar na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que será realizada em dezembro deste ano em Copenhague, posições mais fortes em relação ao tema.

Dia Nacional da Reciclagem


Conforme publicado no Diário Oficial da União da última terça-feira (13), a lei 12.055, de 9 de outubro, institui o Dia Nacional da Reciclagem em 5 de junho.

Segundo os autores da lei, o objetivo de estabelecer uma data nacional para o tema é conscientizar a sociedade sobre a importância da coleta, separação e destinação de materiais recicláveis. O dia 5 de junho foi escolhido por ser também o Dia Mundial do Meio Ambiente.

Só que ter um dia para comemorar pode ser inócuo se não foram tomadas medidas concretas e eficazes para ampliar a coleta seletiva de lixo e a reciclagem dos materiais. De comemorações e falatório, o mundo já está cheio. Mas de ações concretas, que façam a diferença, ainda não. Vamos ver no que dá!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dicas de sustentabilidade da minha avó


Hoje vou começar uma nova série de posts aqui, com as dicas de sustentabilidade da minha avó. Claro que ela nunca chamou suas pequenas atitudes do dia a dia de sustentáveis - até eu só fui perceber há poucos anos que essas pequenas ações que praticávamos em casa naturalmente desde sempre ganharam status de "verdes" e "bacanas". Acho até que ela nunca chegou a ouvir a palavra sustentabilidade em toda a sua longa vida - para ela, uma imigrante portuguesa que morreu no ano passado aos 90 anos de idade, essas atitudes eram uma questão de sobrevivência. Ela passou pela II Guerra Mundial - chegou a cruzar o Atlântico de navio no perigoso ano de 1943 com um bebê no colo para encontrar meu avô no Brasil - e teve que viver num mundo devastado e marcado pela carência de recursos de todo o tipo. Como deverá ser o mundo em breve caso o ritmo de destruição não seja interrompido.

Por isso, decidi resgatar as práticas que minha avó adotava em sua casa e conseguiu transmitir a seus filhos e netos - e que eu, hoje, procuro passar para a sua bisneta e para muitas outras pessoas. São coisas simples, baseadas no bom senso, mas que ajudam a mudar o cotidiano e contribuir para reduzir os nossos impactos no meio ambiente.

A dica de hoje é reaproveitamento e reciclagem. Lá em casa, nunca jogamos potes de plástico ou de vidro no lixo. Depois de lavados, esses potes são usados para armazenar mantimentos ou pequenos objetos - como botões ou pregos. Para dar uma nova cara a eles, você pode pintá-los ou decorá-los do jeito que quiser. Agora, se você tiver acumulado potes demais, há duas saídas: doação para entidades assistenciais (várias aceitam material desse tipo) ou descarte em pontos de coleta seletiva de lixo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Nova edição do Guia Verde de Eletroeletrônicos


O Greenpeace acaba de lançar uma nova edição do Guia Verde de Eletroeletrônicos. A organização analisa produtos dos 18 maiores fabricantes de computadores, celulares e equipamentos eletrônicos e, no Guia, classifica as empresas de acordo com suas políticas de uso de substâncias tóxicas, destinação de resíduos, reciclagem e consumo de energia, entre outros critérios.

A líder do ranking verde é novamente a Nokia, que obteve pontuação de 7,5 (na nota máxima é 10). Em seguida vêm a Sony Ericsson (6,5) e a Philips (5,9). Os últimos colocados são Fujitsu (2,7), Lenovo (2,5) e Nitendo (1,4). Para ver o ranking completo, com as justificativas para as notas, clique aqui. Atenção: por enquanto, está disponível apenas em inglês.

Apesar de aparecer apenas em 14º lugar, a HP foi premiada pelo Greenpeace por ter criado o notebook New ProBook 5310m, quase sem PVC e BFRs, produtos tóxicos que se acumulam no meio ambiente. O Guia Verde de Eletroeletrônicos do Greenpeace está disponível para download no site internacional da organização somente em inglês.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Generosidade: o quarto elemento do triple bottom line


Mais um texto sobre sustentabilidade que acho importante compartilhar - de Rogério Ruschel -, por trazer uma questão fundamental para reflexão: a generosidade. É uma virtude que tem se tornado escassa no mundo, mas, sem ela, não é possível garantir nem a sobrevivência da nossa espécie, nem a do planeta. Nem a dos negócios, como mostrou a crise financeira nos EUA.

Generosidade: o quarto elemento do triple bottom line
Por Rogério Ruschel*

Já não restam dúvidas científicas de que o desenvolvimento sustentável é o único modelo capaz de evitar a degradação em velocidade geométrica das condições de vida e finalmente a inevitável extinção de várias espécies de flora e fauna do planeta, entre as quais provavelmente a do Homo Sapiens - isto é, eu, você e nossos descendentes. Desconfie daqueles que se ocultam atrás de frases como “a ciência mesmo tem dúvidas sobre…”: eles procuram apenas um escudo para esconder sua inércia, preguiça ou covardia. Sabemos que para buscar a sustentabilidade uma pessoa ou organização deve adotar como padrão de comportamento ou gestão ser ambientalmente correta, socialmente justa e econômicamente viável - o triple bottom line, conceito formulado pelo britânico John Elkington. Sabemos também que a busca pela sustentabilidade é uma caminhada que deve ser trilhada com início urgente, imediato, mas final inexistente.Então o que faz uma pessoa, um cidadão, mobilizar-se pelo assunto ou uma empresa adotar a sustentabilidade no universo corporativo? Não sou um pensador estrangeiro, destes que todos ficam achando mais inteligentes do que os brasileiros, mas entendo que fundamentalmente a diferença está numa qualidade humana chamada Generosidade – e que a Generosidade é o quarto elemento do triple bottom line.

Generosidade é a qualidade do que é generoso, pródigo, do que perdoa fácilmente, nobre, leal; a virtude de quem acrescenta algo ao próximo. Generosos são tanto as pessoas que se sentem bem em dividir algo com mais pessoas porque isso as fará bem (em um contexto egocêntrico), tanto quanto aquelas pessoas que dividirão bens tangíveis ou intangíveis com outros, sem a necessidade de receber algo em troca. É o contrário da Ganância. E isto se aplica quase que literalmente para organizações, porque por trás delas sempre estão gestores humanos.

No livro “Princípios de Filosofia” René Descartes apresenta a generosidade como “uma despertadora do real valor do Eu” e ao mesmo tempo uma mediadora para que “a vontade se disponha a aceitar o concurso do entendimento”. É filosófico, sim, mas é simples: a generosidade é uma qualidade de quem coloca os interesses de terceiros no mesmo plano dos seus interesses pessoais, para resolver um problema ou dilema que atinge a todos, que busca o entendimento. Não é exatamente disto que uma sociedade sustentável necessita?

No campo do Direito isto se chama “interesses difusos” – e como sabemos, os interesses difusos - aqueles de interesse do conjunto da sociedade - são constitucionalmente inalienáveis. Trocando em miúdos, a Generosidade deveria ser um dos fundamentos da sociedade brasileira, até mesmo pelo que está escrito em nossa Constitutição. E a Ganância, o oposto da Generosidade, deveria ser execrada porque ofende direitos constitucionais coletivos.

No mundo corporativo Generosidade pode ser traduzida como uma forma de altruísmo – e aqui está a razão do porque poucas empresas realmente adotam a sustentabilidade no processo de gestão: altruísmo não combina com capitalismo selvagem, com a famosa “lei de Gerson”, aquela de que se deve levar vantagem em tudo. No mundo corporativo Generosidade significa uma empresa ser menos gananciosa, tomar a decisão de reduzir um pouquinho a margem de lucro ou aumentar em alguns meses o prazo de retorno de um investimento para ser ambientalmente correta e socialmente justa – sem deixar de ser econômicamente viável. Significa ter a coragem para contrariar práticas de gestão, regras de mercado, de design de produtos e de formas de concorrência estabelecidas por força de um modelo de crescimento a qualquer custo que já se demonstrou completamente inviável do ponto de vista de recursos naturais e de felicidade humana.

A Generosidade é o que diferencia uma empresa que adota critérios de sustentabilidade no modelo de gestão daquelas que dizem que o fazem, mas deslizam na superficilidade ou praticam o greenwashing. Generosidade corporativa significa também compartilhar gratuitamente seu aprendizado, seu conhecimento, suas patentes, sua força e seus recursos em nome de interesses que ultrapassam os limites da empresa. O jornalista Dal Marcondes, da Envolverde, costuma dizer que filantropia é dar um peixe a quem tem fome, responsabilidade social é ensinar a pescar e sustentabilidade é preservar o rio. Pois no contexto da Generosidade corporativa este compartilhamento é estar na nascente do rio e compreender a importância de seu fluxo e entorno até a foz e além – é perceber o que de fato importa para possam continuar existindo peixes. Generosidade corporativa é perceber o problema de emissões de gases do efeito estufa não apenas como um volume de particulados em suas chaminés, mas como um assunto de interesse coletivo – e ir além de metas de redução. Generosidade corporativa é compreender que não basta fazer o seu papel, é preciso mobilizar seus parceiros de negócios – e para isso poderá ser necessário ceder em aspectos antes inegociáveis. Mas a Generosidade corporativa também oferece vantagens e oportunidades de negócios. Alguns exemplos, já clássicos:

* A Danone francesa se associou a cooperativas de trabalhadores e ao Grameen Bank para implantar em Bangladesh 50 fábricas de iogurte de baixo custo. Com isso está atendendo crianças subnutridas com redução de custos fixos na implantação de fábricas e custos de produção, porque os funcionários são sócios e consumidores. Marketing? Sim, e inteligente, porque o modelo só funciona se houver redução da margem de lucro – uma opção generosa para conquistar mercado

* No começo dos anos 2000 a Sadia investiu na construção de dezenas de biodigestores nas propriedades de pequenos produtores de suínos. E porque ela fez isto se não está no ramo de produção de energia? Porque com esta iniciativa passou a evitar dezenas (talvez centenas) de multas pela contaminação do solo com os residuos da criação, reduziu os custos dos produtores que passaram a gerar sua própria energia elétrica, agregou valor à atividade para fixar os filhos dos produtores no campo, perpetuando o fornecimento de matéria-prima – e ainda gerou créditos de carbono! Puro negócio? Sim, mas a generosidade está em investir “dinheiro bom” em uma idéia coletiva, com prazo longo de recuperação.

* Evoluindo aos poucos durante os anos 90, a Interfaceflor, empresa norte-americana fabricante de tapetes, já está fabricando produtos com 100% de fibras recicladas a partir dos tapetes velhos de seus clientes. Ao fazer isto percebeu uma ótima oportunidade. Como tapete é artigo de decoração e sai de moda, a empresa mudou o modelo de negócio: está propondo que seus clientes não comprem seus tapetes – e como num processo de “leasing” de automóveis, as familias podem ficar com o produto ou trocar por outro, ao fim do pagamento. Coragem para mudar exige generosidade.

Na linha do tempo da história a Generosidade é um dos traços da personalidade de pessoas que trouxeram benefícios universais para a Humanidade como Mahatma Ghandi, Buda, Jesus Cristo, Nelson Mandella, Martin Luther King, Wangari Maathai, Muhammad Yunus, Madre Teresa de Calcutá e outros, mas também aparece em pequenos gestos de pessoas comuns em nosso dia-a-dia, e que merecem ser elogiados e replicados.S e lhe parece complicado entender a importância da Generosidade como parte da essência da sustentabilidade, basta pensar no seu oposto, a Ganância. Com certeza você vai concordar comigo que a Generosidade realmente é o quarto elemento do triple bottom line.

* Rogerio Ruschel é diretor da Ruschel & Associados Marketing Ecológico e editor da revista eletrônica Business do Bem – Economia, Negócios e Sustentabilidade. Para saber mais sobre o tema clique aqui.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Para não errar na hora de comprar produtos orgânicos


A partir de 2010, entrará em vigor no país o Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica (Sisorg), que estabelece parâmetros para a certificação de produtos orgânicos. A nomenclatura desses produtos seguirá a seguinte classificação:
* Produto orgânico: produto com no mínimo 95% de ingredientes orgânicos e que não contenha ingredientes transgênicos
* Produto com ingredientes orgânicos: que tenha entre 70% e 95% de ingredientes orgânicos
* Não-orgânico: produto com menos de 70% de ingredientes orgânicos.

Além disso, os produtores de orgânicos não podem usar agrotóxicos nem fertilizantes químicos, precisam respeitar as legislações trabalhista e ambiental e realizar o manejo sustentável dos recursos naturais e dos resíduos gerados na produção.

Os produtos classificados como orgânicos, como alimentos, cosméticos ou roupas de algodão, entre outros, receberão o selo de identificação do Sisorg — Produto Orgânico Brasil — para ser colocado nas embalagens, ao lado do selo da entidade que certificou o produto como orgânico também deverá ser estar no produto.

Para divulgar essas e outras informações sobre os produtos orgânicos à população, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento lançou a cartilha O Olho do Consumidor - Produto Orgânico. Por meio de ilustrações feitas pelo cartunista Ziraldo, a publicação explica o que é um produto orgânico, as formas de identificá-lo e o processo de certificação que entrará em vigor no ano que vem.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Ecologizar o desejo


A falta de controle sobre nossos desejos são os maiores responsáveis por muitos problemas que afetam o planeta e a humanidade hoje. Por isso, vale a pena conhecer a reflexão de Maurício Andrés Ribeiro, que reproduzo abaixo, e pensar a respeito.

Ecologizar o desejo
Por Maurício Andrés Ribeiro*

Por meio de um aprendizado individual ou coletivo, podemos selecionar desejos e hábitos que sejam ecologicamente amigáveis e descartar os antiecológicos.

O fundo sem nome é o que não tem desejo. É pelo sem desejo e a quietude que o universo regula a ele mesmo. (Lao Tsé)

A profundidade e gravidade da atual crise ecológica e climática exigem que se eleve o nível da consciência ecológica individual ou coletiva.O desejo tem a função de nos impulsionar, embora não possa ser plenamente satisfeito. A ilusão de acreditar nessa fantasia gera o consumo irresponsável e a devastação ambiental.Desejos são construídos social, cultural e coletivamente. A sociedade e a cultura, com seus valores, os regulam. Eles são variáveis sobre as quais se pode trabalhar. Podem ser lapidados e refinados por meio da consciência.É possível trabalhar na origem e na seleção cultural dos desejos, separando o joio do trigo; selecionando aqueles que têm em si o embrião de conseqüências maléficas, daqueles que tem efeitos benéficos.Desejos são sementes das quais brotam ações. Os de consumo trazem impactos diretos sobre a ecologia ambiental, ao pressionarem a exploração da natureza. A tentativa de satisfação acrítica de desejos e demandas de consumo devasta a Terra e exaure bens e recursos naturais.A ação sobre eles, portanto, pode reduzir ou expandir seus impactos.Como ecologizar o desejo?Ecologizar é aplicar os conhecimentos das ciências ecológicas e a consciência ecológica às situações práticas do dia a dia, tanto individuais como coletivas.

Ecologizar o desejo é:
* um processo psicológico e subjetivo, pois implica em reduzir ou eliminar desejos ecologicamente destrutivos;
* substituir um desejo que cause impacto negativo ao ambiente natural, social ou pessoal, por algo que seja ecologicamente menos destrutivo;
* cultivar aqueles que não causem impactos negativos ao ambiente e dissolver aqueles que tenham o efeito inverso.
* A ecologização de desejos pode ocorrer por meio de estímulos de fora para dentro, da sociedade para as pessoas, por meio de interdições legais, tabus, castigos e penalizações. A legislação tende a se tornar cada vez mais restritiva para com aquelas ações que coloquem em risco a segurança ambiental e humana e que são decorrentes de desejos que impactam negativamente o ambiente.

A lei de crimes ambientais penaliza atos ecologicamente destrutivos decorrentes de desejos individuais ou sociais.As instituições sociais e religiosas têm forte papel na regulação dos desejos. Também, na delimitação daqueles que são social ou eticamente admitidos em oposição àqueles que são criminalizados ou “pecadificados”. A pecadificação dos desejos é uma forma de lembrar que eles não devem ser realizados. Exemplos nos mandamentos religiosos: não desejar a mulher do próximo; não cobiçar as coisas alheias; evitar a inveja — o desejo de ter o que o outro tem.

A ecologia social e as relações sociais são impactadas por ações decorrentes de desejos de glória, de poder ou de dominação econômica, política ou militar. No campo da ecologia pessoal ou do ser, o manejo sustentável dos desejos também pode ser feito de dentro para fora, do indivíduo para a sociedade, por meio de práticas de análise, autoconhecimento e expansão da consciência, Yoga, reflexão ou meditação. Expandir a tolerância a viver no vazio dos desejos e trabalhar para naturalmente dissolvê-los e deixá-los passar pode abrir um campo vasto para sentimentos e pensamentos criativos e originais bem como para a ação ecologizada.

Para que a ação seja ecologizada, o custo da satisfação de um desejo antiecológico deve ser maior do que o beneficio; o sofrimento a ele associado, maior do que o prazer em obtê-lo. Muitas pessoas ignoram ou não percebem que têm hábitos ou desejos antiecológicos, e que estão adaptadas à normose alienada. Por meio de um aprendizado individual ou coletivo, podem-se selecionar aqueles desejos e hábitos que sejam ecologicamente amigáveis e descartar aqueles que sejam antiecológicos. Do mesmo modo como se faz para os empreendimentos humanos no licenciamento ambiental, pode-se fazer uma avaliação de impactos ambientais dos desejos. Os desejos de natureza econômica e material têm impactos diretos sobre a demanda por recursos naturais ou sobre a emissão de poluições. Deles decorrem múltiplos problemas ambientais e climáticos.

Diz Gandhi que “existem recursos suficientes neste planeta para atender às necessidades de todos, mas não o bastante para satisfazer o desejo de posse de cada um”. São passíveis de serem alterados por meio de estímulos externos, de preços ou normas regulatórias. São manipuláveis — para o bem ou para o mal — por instrumentos de gestão ambiental. Instrumentos de vários tipos podem ser usados para ecologizar os desejos e comportamentos dos cidadãos e de uma sociedade: incentivos ou desincentivos econômicos podem ser impostos para estimular ou inibir comportamentos. Um exemplo: na Europa cogita-se aumentar o preço de automóveis que emitam muitos gases de efeito estufa, para desestimular seu uso.

Propaganda ecológica poderia neutralizar a propaganda antiecológica. Da mesma forma como o marketing, a publicidade e a propaganda atuam sobre o inconsciente e excitam o desejo de consumo, também poderiam, caso houvesse consciência, vontade e impulso coletivos, promover o desejo por saúde ambiental, bem como a redução da demanda por bens cujo processo de produção é destrutivo, degradador, poluidor, emissor de gases de efeito estufa. Assim, por exemplo, pode-se contrapor à publicidade comercial que exacerba desejos de consumo outras forças, que neutralizem e minimizem os impulsos em direção ao desejo do consumo, cuja satisfação pressiona a natureza.
A educação e o autoconhecimento são fundamentais para dissipar a ignorância e ajudar selecionar os desejos que devem ser cultivados. A autocomplacência do consumidor ou cidadão e a ignorância sobre as conseqüências dos desejos originam ações ecologicamente destrutivas.
A cultura e a educação podem elevar as aspirações dos cidadãos acima dos desejos e sonhos de consumo. Por meio dessas ações é possível cultivar os desejos cuja realização coloque em menor risco a segurança individual e coletiva e que tenham menores impactos sobre o ambiente natural e sobre o planeta.

* Maurício Andrés Ribeiro é arquiteto e autor de “Ecologizar — Pensando o ambiente humano” e “Tesouros da Índia para a civilização sustentável”

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